Concurso Biomédico

Ficha de estudo · Bioquímica Clínica

Marcadores hepáticos e bilirrubinas: ficha de estudo para concurso de Biomédico

Na nossa base, o tema caiu em 43 das 183 provas de Biomédico (49 questões). As bancas que mais cobram: AOCP e IBFC.

Em uma frase

AST e ALT mostram lesão do hepatócito; FA e GGT mostram colestase; albumina e tempo de protrombina mostram a capacidade de síntese. A bilirrubina diz onde está o problema: antes do fígado (hemólise, não conjugada), no fígado ou depois dele (obstrução, conjugada).

O que mais cai neste tema

Contamos os assuntos das 47 questões deste tema que já têm comentário na nossa base. A ficha segue esta ordem:

  1. Padrões de AST e ALT em hepatite viral, álcool, cirrose e colestase: 24 questões.
  2. AST e ALT em si (especificidade, localização, nomes TGO/TGP): 17 questões.
  3. FA, GGT e marcadores de colestase: 16 questões.
  4. Bilirrubina e os tipos de icterícia: 14 questões.
  5. Quais exames avaliam o fígado e quais não: 13 questões.
  6. Álcool (9), função de síntese (8) e valores de referência (7) fecham a lista.

Muitas questões são casos clínicos com um laudo para interpretar: o caminho é olhar quais enzimas subiram, quanto subiram e qual fração da bilirrubina predomina.

Padrões que a banca cobra

SituaçãoAminotransferasesFA e GGTPista
Hepatite viral ou tóxica agudaMuito altas (15 a 100 vezes o limite superior), em geral ALT > ASTPouco aumentadasAcima de 10 vezes o limite superior indica lesão aguda do hepatócito
Hepatite alcoólicaAumento moderado, AST raramente passa de 10 vezes o limiteGGT altaAST/ALT > 2
CirrosePouco aumentadas (menos de 5 vezes o limite), AST > ALTVariáveisAlbumina baixa e TP prolongado
Colestase (cálculo, tumor de cabeça de pâncreas)DiscretasMuito altasBilirrubina conjugada alta, colúria, fezes claras

As provas hepáticas não separam causa viral de medicamentosa: para isso entram a história clínica, o uso de fármacos, a sorologia e a melhora após retirar o medicamento.

Aminotransferases: AST e ALT

  • Reações: ALT transfere o grupo amino da alanina para o α-cetoglutarato, formando piruvato e glutamato; AST faz o mesmo com o aspartato, formando oxalacetato e glutamato. A coenzima é o piridoxal fosfato.
  • Nomes: AST e ALT são os atuais; TGO e TGP são os nomes antigos e continuam nos laudos. Usar TGO/TGP não torna a questão errada.
  • Localização: a ALT é citoplasmática; a AST tem uma forma citoplasmática e outra mitocondrial. Lesão leve libera a citoplasmática; lesão grave libera também a mitocondrial e a razão AST/ALT sobe.
  • Especificidade: a ALT é a mais específica do fígado. A AST também está em coração, músculo, rim, cérebro, hemácias e pulmão, e sobe no infarto, na lesão muscular, na pancreatite e na hemólise.
  • Meia-vida: AST cerca de 18 horas e ALT cerca de 48 horas.
  • São sensíveis, mas não específicas: sobem antes da bilirrubina na lesão aguda do hepatócito.

FA, GGT, 5'-nucleotidase e colinesterase

  • Fosfatase alcalina: está no fígado (membrana canalicular), osso, intestino, placenta e rim. Sobe na colestase e nas lesões que ocupam espaço (tumor, metástase, abscesso); também sobe no crescimento e na gravidez.
  • GGT: sobe em toda colestase e é induzida pelo álcool e por fármacos como fenitoína e barbitúricos, mesmo sem doença hepática. Confirma que uma FA alta vem do fígado, porque é normal na doença óssea e na gravidez.
  • GGT e álcool: boa triagem de consumo crônico, mas pouco específica; volta ao normal em semanas de abstinência.
  • 5'-nucleotidase: sobe nas doenças que atrapalham a secreção da bile e é normal na doença óssea; também ajuda a confirmar a origem hepática da FA.
  • Colinesterase sérica (pseudocolinesterase): sintetizada no fígado; DIMINUI na insuficiência hepática, na cirrose e na intoxicação por organofosforados.

Metabolismo da bilirrubina

  1. Hemácias velhas (cerca de 120 dias) são destruídas no sistema reticuloendotelial; o heme vira biliverdina e depois bilirrubina não conjugada.
  2. A bilirrubina não conjugada (indireta) é insolúvel em água e viaja ligada à albumina; não passa para a urina, mas atravessa a barreira hematoencefálica (risco de kernicterus).
  3. No hepatócito, a UDP-glicuronosiltransferase conjuga a bilirrubina com ácido glicurônico; a conjugada (direta) é hidrossolúvel e vai para a bile. A excreção para o canalículo é a etapa limitante.
  4. No intestino, bactérias transformam a bilirrubina em urobilinogênio; parte é reabsorvida e uma pequena fração sai na urina; o restante vira estercobilina, que dá cor às fezes.

Direta = conjugada = hidrossolúvel = pode aparecer na urina. Indireta = não conjugada = ligada à albumina = não aparece na urina. A banca adora trocar os dois.

Os três tipos de icterícia

TipoBilirrubina que sobeUrinaFezes e urobilinogênioEnzimas
Pré-hepática (hemolítica)Não conjugada (indireta)Sem bilirrubina (acolúrica)Fezes normais; urobilinogênio aumentadoAST, ALT e FA normais
Hepática (hepatocelular)Principalmente conjugada, com parte não conjugadaPode ter colúriaVariávelAST e ALT muito altas; FA modesta
Pós-hepática (colestática)ConjugadaColúria (urina escura)Fezes claras (acólicas); urobilinogênio baixo ou ausente na obstrução completaFA e GGT muito altas; AST e ALT discretas

Na icterícia hepatocelular, a bilirrubina sobe tarde; na colestática, sobe cedo junto com a FA e a GGT.

Os três grupos de marcadores

"Provas de função hepática" é um nome impróprio: a maioria dos testes não mede a função do fígado, e sim a existência, a extensão e o tipo de lesão. Só albumina, tempo de protrombina e colinesterase avaliam de fato a síntese.

GrupoMarcadoresO que indicam
Lesão do hepatócitoAST (TGO) e ALT (TGP)Extravasamento de enzimas pela membrana lesada; sobem antes da bilirrubina na lesão aguda
ColestaseFosfatase alcalina (FA), GGT, bilirrubina conjugada; 5'-nucleotidase como apoioDificuldade de secreção ou fluxo da bile (intra ou extra-hepática)
SínteseAlbumina, tempo de protrombina (TP/INR), colinesteraseQuanto o fígado ainda consegue produzir; caem ou se alteram na doença grave ou crônica avançada

Não são marcadores hepáticos: amilase e lipase (pâncreas), ureia e creatinina (rim), CK-MB, troponina e BNP (coração), HbA1c e TSH. LDH e CK também não são específicas do fígado.

Função de síntese

  • Albumina: feita só no fígado e com meia-vida longa (cerca de 3 semanas), por isso cai tarde. Albumina baixa aponta doença crônica avançada ou dano agudo grave, mas também cai em perdas renais ou intestinais e na desnutrição.
  • Tempo de protrombina: depende de fatores feitos no fígado, alguns com meia-vida de horas, por isso altera cedo. Fica prolongado na hepatite grave e na cirrose, e também na falta de vitamina K da obstrução biliar, que corrige com vitamina K por via parenteral.
  • Hepatite crônica: alteração das provas hepáticas que persiste por mais de 6 meses.

Recém-nascido e síndromes hereditárias

CondiçãoBilirrubinaO que guardar
Icterícia fisiológica do recém-nascidoNão conjugadaUDP-glicuronosiltransferase ainda imatura; icterícia no 1º dia ou que persiste além de 10 dias é patológica
Síndrome de GilbertNão conjugada, leve (menos de 3 mg/dL)Comum e benigna; atividade reduzida da enzima de conjugação; piora com jejum; AST, ALT e FA normais
Crigler-Najjar tipo I e IINão conjugadaTipo I: ausência da enzima, kernicterus. Tipo II: redução da enzima, responde ao fenobarbital
Dubin-Johnson e RotorConjugadaDefeito de excreção (Dubin-Johnson, com pigmento escuro no fígado) ou de captação e armazenamento (Rotor); enzimas normais

Valores de referência e amostra

ExameReferência usual em adultos
Bilirrubina totalaté cerca de 1,0 a 1,3 mg/dL
Bilirrubina diretaaté cerca de 0,2 a 0,4 mg/dL
AST e ALTem torno de 10 a 40 U/L (variam com o método e o sexo)
GGT7 a 50 U/L (a partir de 16 anos)
Tempo de protrombina11 a 14 s; INR em torno de 1,0

A icterícia aparece a partir de cerca de 3 mg/dL de bilirrubina. Os valores mudam entre laboratórios: na prova, use os que o enunciado der.

  • Hemólise na amostra eleva a AST, porque as hemácias têm mais enzima que o plasma; o soro deve ser livre de hemólise.
  • Bilirrubina: soro protegido da luz, sem hemólise nem lipemia.
  • Método clássico da bilirrubina: reação diazo (ácido sulfanílico diazotado, Ehrlich). A fração direta reage em meio aquoso; a indireta precisa de um acelerador (álcool no Van den Bergh, metanol no Malloy-Evelyn, cafeína-benzoato no Jendrassik-Grof).

Pegadinhas frequentes

  • Dizer que a bilirrubina conjugada é a indireta (é a direta).
  • Dizer que a icterícia hemolítica tem bilirrubina na urina (não tem: a não conjugada não é filtrada).
  • Dizer que a ALT é mitocondrial ou que a AST é mais específica do fígado (é o contrário).
  • Chamar a hemólise in vitro de causa de AST baixa (ela aumenta a AST).
  • Dizer que a colinesterase sobe na hepatite ou na intoxicação por organofosforados (ela cai).
  • Achar que a síndrome de Gilbert eleva AST e ALT (as enzimas são normais).
  • Dizer que o TP está "reduzido" na insuficiência hepática (está prolongado).
  • Tratar a FA como o marcador mais sensível e precoce de colestase: a GGT é mais sensível e confirma a origem hepática.

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Fontes

  1. GAW, A. et al. Bioquímica clínica. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. caps. 28 (testes de função hepática), 29 (icterícia) e 30 (doença hepática)
  2. MARSHALL, W. J.; LAPSLEY, M. et al. (ed.). Bioquímica clínica: aspectos clínicos e metabólicos. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. caps. 13 (avaliação da função hepática) e 14 (doença hepática)
  3. MOTTA, V. T. Bioquímica clínica: princípios e interpretações. [Cap. Sistema hepatobiliar]. sistema hepatobiliar: metabolismo da bilirrubina, hiperbilirrubinemias, métodos e valores de referência
  4. MOTTA, V. T. Bioquímica clínica: princípios e interpretações. [Cap. Enzimas, v. 6]. fosfatase alcalina, aminotransferases, gama-GT, 5'-nucleotidase e colinesterase
  5. BARCELOS, L. F.; AQUINO, J. L. (ed.). Tratado de análises clínicas. 1. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2018. cap. 12 (fígado, enzimas e proteínas plasmáticas)
  6. WILLIAMSON, M. A.; SNYDER, L. M. Wallach: interpretação de exames laboratoriais. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, [2016?]. verbetes de icterícia, aminotransferases e gamaglutamiltransferase
  7. HALL, J. E. Guyton & Hall: tratado de fisiologia médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. cap. 71 (o fígado; bilirrubina e icterícia)
  8. NELSON, D. L.; COX, M. M. Lehninger principles of biochemistry. 4. ed. New York: W. H. Freeman, 2005. aminotransferases e degradação do heme